Existem instrumentos de apoio relevantes para acompanhar esses investimentos, e a metalomecânica tem demonstrado capacidade para os aproveitar.
Segundo os nossos dados internos, o setor representa mais de 20% das candidaturas submetidas ao IAPMEI, à data, no Portugal 2030. É um sinal encorajador de uma indústria que procura crescer e modernizar-se.
As necessidades das empresas são diversas. Há aquelas que querem aumentar a sua capacidade produtiva, outras que pretendem desenvolver novos produtos, automatizar operações, reduzir consumos ou entrar em novos mercados.
Os instrumentos de ‘Inovação Produtiva’, ‘I&D Empresarial’, ‘Qualificação e Internacionalização das PME’ e os apoios à ‘Descarbonização e Eficiência Energética’ podem acompanhar diferentes dimensões desse percurso, de acordo com as condições de cada aviso.
O ponto de partida deve ser o projeto e não o incentivo. O primeiro passo é perceber o que a empresa pretende alcançar. A partir daí, torna-se mais fácil identificar o instrumento adequado, o calendário e a forma de financiar o investimento.
Pela proximidade às empresas e pelo conhecimento dos instrumentos, considero que o IAPMEI é um interlocutor preferencial para fazer a ponte entre as necessidades empresariais e as respostas das políticas públicas. A nossa Rede de Centros de Atendimento Empresarial, com presença descentralizada no país, é uma porta de entrada para essa conversa.
Estamos a falar de investimentos que podem melhorar simultaneamente o desempenho ambiental e a competitividade da empresa, logo existem oportunidades muito concretas.
Na eficiência energética, isso pode passar pela otimização de motores, sistemas de ar comprimido, fornos ou produção de frio, pela recuperação de calor ou pela monitorização dos consumos.
Conhecer melhor onde e como se utiliza a energia permite identificar desperdícios e fundamentar decisões de investimento.
O Sistema de Incentivos à Transição Climática e Energética contempla apoios à eficiência energética e à descarbonização. O enquadramento de cada projeto depende das condições e dos períodos de candidatura dos avisos.
Na economia circular, há também um potencial importante: utilizar melhor a matéria-prima, reduzir sucata e rejeições, recuperar componentes e prolongar a vida útil dos equipamentos. O apoio mais adequado dependerá da natureza da intervenção, que poderá envolver inovação, investimento produtivo ou qualificação. Logo diria que o diagnóstico assume um papel preponderante no processo, ajudando a construir um projeto com resultados claros e a procurar o enquadramento mais adequado.
A tecnologia cria valor quando responde a uma necessidade da empresa e pode ser integrada na sua atividade. Uma solução pode ser muito avançada, mas o investimento deve fazer sentido para o produto, para o processo e para o mercado a que se destina.
Começaria por três perguntas: que problema queremos resolver, o que esperamos melhorar e de que condições precisamos para o conseguir?
Depois é importante perceber a maturidade da solução. Podemos estar perante um projeto que ainda exige investigação e desenvolvimento, uma tecnologia que precisa de ser testada ou uma solução já pronta para aplicação industrial. Cada situação pede um percurso diferente.
Há também uma dimensão de capacitação que considero decisiva. A empresa precisa de pessoas preparadas para utilizar a tecnologia, organizar os dados, adaptar processos e assegurar a sua continuidade.
É nessa combinação entre tecnologia, competências e organização que vejo maior potencial. O investimento deve traduzir-se em resultados: maior produtividade, melhor qualidade, menos desperdício, capacidade para produzir peças mais complexas ou uma resposta mais rápida ao cliente.
Há espaço para valorizar o percurso das empresas que querem melhorar progressivamente os seus processos.
A inovação industrial acontece muitas vezes através de melhorias sucessivas que, em conjunto, transformam a capacidade competitiva da empresa.
Uma empresa pode inovar ao integrar operações numa célula automatizada, introduzir novas tecnologias de fabrico, digitalizar o controlo da produção ou melhorar a rastreabilidade e a qualidade. Não será necessário inventar uma tecnologia para realizar um investimento inovador.
O enquadramento depende, naturalmente, do instrumento. Na Inovação Produtiva, a empresa deve fundamentar a inovação e demonstrar a transformação que o investimento permite alcançar. A simples substituição de equipamento não garante, por si só, esse enquadramento.
O mais útil é conseguir explicar o antes e o depois: o que muda na produção, na qualidade, nos custos, na capacidade ou na resposta ao mercado. Vale a pena olhar para as oportunidades de melhoria da própria empresa. Um projeto bem fundamentado, construído a partir de uma necessidade real, pode ser um passo importante de crescimento.
Existe hoje uma oportunidade muito concreta. A Europa está a reforçar a sua capacidade industrial de defesa e isso abre espaço para empresas portuguesas que já possuem competências industriais relevantes, mesmo que até hoje não tenham trabalhado diretamente para este mercado.
A metalomecânica portuguesa tem competências em maquinação de precisão, engenharia, estruturas, componentes, automação e produção de elevada exigência que podem ser aplicadas nestas novas cadeias de fornecimento.
E estão já a surgir instrumentos especificamente dirigidos a esta prioridade. No Portugal 2030 temos já previsto o Investimento Empresarial Produtivo para a Defesa, especificamente no Alentejo 2030, e orientado para o reforço das capacidades industriais neste domínio.
Ao nível europeu existem também oportunidades crescentes. O novo programa AGILE dispõe de 115 milhões de euros e pretende, já no início de 2027, apoiar PME, incluindo startups e empresas em expansão, no desenvolvimento de tecnologias de defesa emergentes e disruptivas, designadamente aproximando a inovação da capacidade operacional e facilitando também ensaios e certificação.
Isto mostra que existe espaço para Portugal.
Mas entrar na cadeia de valor da defesa exige mais do que capacidade produtiva. Exige qualidade, certificação, rastreabilidade, capacidade tecnológica, segurança e capacidade para trabalhar em cadeias de fornecimento internacionais.
Por isso, a oportunidade não deve ser vista apenas como a possibilidade de aceder a um novo apoio. Deve ser encarada como uma oportunidade para qualificar a indústria portuguesa e posicioná-la em cadeias europeias de maior exigência e valor acrescentado.
O primeiro passo é a empresa conseguir formular o desafio que pretende resolver. Pode ser desenvolver um material, melhorar um processo, testar uma solução ou criar um produto. Quanto mais claro for esse desafio, mais fácil será identificar as competências necessárias.
O IAPMEI pode ajudar a orientar essa procura e a enquadrar as possibilidades de colaboração e de apoio. A proximidade às empresas é importante precisamente porque permite começar pela necessidade empresarial.
A experiência das Agendas Mobilizadoras mostra também uma evolução importante na forma como esta cooperação pode acontecer. Recordo que estamos a falar de 51 Agendas, perto de 900 empresas e mais de 200 outras entidades, incluindo universidades e centros tecnológicos.
São consórcios que juntam competências em torno de objetivos comuns de desenvolvimento, demonstração e industrialização. Essa experiência tem também aprendizagens que importa aproveitar para tornar a colaboração mais acessível a outras empresas.
Nem todas as PME precisam de integrar um consórcio desta dimensão. Os instrumentos de I&D Empresarial permitem explorar outras formas de colaboração.
Uma empresa não precisa de reunir todo o conhecimento dentro de portas. Precisa de saber o que procura e de ter capacidade para trabalhar com quem a pode ajudar.
Eu distinguiria duas dimensões: cumprir as condições de acesso e demonstrar o mérito do projeto.
As condições de elegibilidade dizem respeito à empresa e ao investimento e estão definidas nos regulamentos e nos avisos. Devem ser verificadas desde o início, para que a preparação assente num enquadramento adequado.
O mérito deve ser demonstrado através de uma relação clara entre o diagnóstico, os objetivos, os investimentos e os resultados esperados. Os critérios estão definidos em cada aviso e a aprovação depende também da posição relativa das candidaturas e dos recursos disponíveis.
A empresa deve conseguir explicar de onde parte, que oportunidade pretende aproveitar, por que escolheu aquele investimento e que diferença espera alcançar.
Esta preparação é útil para além da candidatura. Obriga a testar pressupostos, a perceber necessidades e a tornar as decisões mais claras.
Por isso, empresas deverão procurar informação numa fase inicial já que o esclarecimento de esclarecer dúvidas a pode ajudar a preparar um projeto mais consistente e a evitar dificuldades durante a execução.
O incentivo pode dar um contributo importante para viabilizar ou reforçar um investimento, mas não resolve, por si só, o financiamento do projeto.
Deve ser integrado num plano financeiro que cubra todo o projeto e o seu calendário de execução.
Isso significa perceber quanto a empresa vai investir, que recursos próprios pode mobilizar, de que financiamento externo necessita e quando prevê receber o apoio. É igualmente importante acomodar despesas não elegíveis, eventuais desvios e necessidades de fundo de maneio.
Há soluções que podem complementar os incentivos, incluindo crédito e garantias, nomeadamente através dos instrumentos do Banco Português de Fomento, de acordo com as respetivas condições.
O momento de assumir compromissos também merece atenção, devido às regras aplicáveis ao efeito de incentivo. É uma das razões para procurar esclarecimento antecipadamente.
Com um projeto bem preparado e uma estrutura financeira adequada, o apoio público pode ser uma alavanca importante para o crescimento.
Os apoios podem acompanhar as várias etapas do percurso de diversificação de mercados e da entrada em cadeias de fornecimento de maior valor acrescentado: desenvolver um produto, adaptar o processo produtivo, reforçar competências, obter qualificações relevantes e preparar a abordagem comercial.
Os instrumentos de I&D, Inovação Produtiva, Qualificação e Internacionalização podem responder a necessidades diferentes, sempre em função do projeto e das condições de acesso.
Na minha perspetiva, a metalomecânica portuguesa tem oportunidades para valorizar competências em engenharia, qualidade, flexibilidade e produção de elevada exigência.
Uma empresa pode utilizar o conhecimento que já possui do mercado para responder a novos clientes nas áreas da energia, mobilidade ou defesa. As feiras e as ações de prospeção podem ser importantes dentro dessa estratégia.
Gostaria de ver cada vez mais empresas a usar os apoios para dar esse passo: desenvolver soluções de maior complexidade, reforçar a relação com os clientes e conquistar uma posição de maior valor nas cadeias internacionais.
Podem começar pela nossa Rede de Centros de Atendimento Empresarial, que tem presença descentralizada no país. Essa proximidade é uma característica que valorizo muito: permite às empresas procurar informação e orientação sobre as suas necessidades e os instrumentos que podem fazer sentido.
Não é preciso chegar com uma candidatura preparada. É útil chegar com uma ideia do investimento, do objetivo pretendido, da localização, do calendário e da forma como se pensa financiá-lo. Mesmo quando o projeto ainda está numa fase inicial, este enquadramento pode ajudar a identificar questões que precisam de ser trabalhadas.
Se houver necessidade de apoio especializado, a empresa pode recorrer a competências externas. O essencial é que o empresário continue envolvido nas decisões e conheça os investimentos e as metas que constam da candidatura.
Olhando para 2030, eu diria que vamos ter de evoluir para uma política de incentivos mais seletiva e mais orientada para resultados e para prioridades estratégicas. Mas seletividade não deve significar necessariamente apoiar apenas grandes projetos ou inovação radical. Significa ser mais exigente naquilo que esperamos obter em resultado do apoio público.
Na minha perspetiva, devemos continuar a investir na produtividade, na capacitação das pessoas, na digitalização, na descarbonização e no acesso aos mercados. São dimensões que se reforçam mutuamente e que devem ser pensadas de forma articulada.
A Europa está também a dar maior atenção à capacidade tecnológica, à segurança económica e à redução de dependências estratégicas. Vejo aí oportunidades para a indústria portuguesa desenvolver competências e ocupar novas posições nas cadeias de valor.
A lógica dos avisos lançados no âmbito da Plataforma STEP é um bom exemplo dessa evolução. Já não se trata apenas de perguntar se um projeto é inovador. Perguntamos também se contribui para desenvolver ou fabricar tecnologias críticas, reforçar as respetivas cadeias de valor ou reduzir dependências estratégicas europeias.
Isto significa que áreas como as tecnologias digitais e deep tech, tecnologias limpas e eficientes na utilização dos recursos e biotecnologias, bem como as respetivas cadeias de valor, tenderão a assumir uma importância crescente.
Gostaria que os instrumentos evoluíssem com uma orientação cada vez mais clara para a transformação que permitem alcançar. Isso implica olhar para a situação de partida da empresa, para os resultados do investimento e para o contributo específico do apoio público.
Essa orientação deve, contudo, reconhecer diferentes percursos empresariais. Há projetos de grande dimensão, mas há também investimentos mais pequenos que podem representar uma mudança decisiva para uma PME.
Defendo também uma melhor articulação entre incentivos, financiamento, garantias, I&D, formação e internacionalização. Para a empresa, estas necessidades fazem parte do mesmo percurso de crescimento. As respostas públicas devem procurar acompanhá-lo com essa visão de conjunto.
Gostaria de deixar uma mensagem de confiança. Há competências na indústria portuguesa, há empresas a investir e existem instrumentos de apoio que podem ajudar a concretizar novos projetos. Os apoios públicos existem para acompanhar a ambição empresarial, e as empresas devem continuar a recorrer a eles para inovar, modernizar e crescer.

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